O sotaque dos afónicos

Dallas Intro Season 1 (1978)

O espetáculo começa com abertura bombástica em voz-off, preparando o carrossel narrativo – the plot! – que condensará uma série de temporadas televisivas numa só cena, num só fôlego. Uma gigantesca nota de dólar americano – oh, money money – forra todo o cenário , enquadrando uma longa mesa de toalha branca com copos e vários telefones cromados e, do lado direito…um mexicano que praticamente não se moverá durante toda a peça.

Entra em cena a família Ewing: Bobby! Jock! JR! Miss Ellie! Lucy! Pamela! Sue Ellen!! –, os homens de fatinho branco e chapéu à cowboy, de pistola na mão ou à cintura, na jactância prepotente que identificamos como texana, e as mulheres de vestido brilhante e fartas cabeleiras artificiais.

E depois começam a falar.

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Jaap Blonk: workshop + performance

© Poster by Rui Silva.

On May 20, 2019, the PhD Programme in Materialities of Literature will host the sound poet Jaap Blonk. Blonk will give a workshop about his creative practices at the School of Arts and Humanities, University of Coimbra, Sala Ferreira Lima, 4 pm (16h00).

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nome de gente, melodia de pássaro

Verdilhão (carduelis chloris)

Verdilhão/ carduelis chloris (2009-04-02), em Dwingelderveld, Drenthe, Holanda, gravado por Sander BOT (xeno-canto)

Mas o ar tinha uma certa graça e, se bem que a ornitologia do trilo fosse discutível, será que não valia mais a pena começar a aprendizagem de [‘ʒwɐ͂w̃] com um chilrear acessível para depois o encerrar num trilo único de onde nunca mais sairia? (VILLEMAUX 2019, 13)

O primeiro número (#0) de Coreia (fevereiro de 2019) foi lançado na Rua das Gaivotas 6 em Lisboa no passado dia 24 de fevereiro de 2019 e inclui um texto de Cyriaque Villemaux (1988, Offenburg, DE) – “Enfanter le père” (“Inventar o pai”, na tradução de Vieira Mendes) – que parte da “ideia segundo a qual nós também herdamos dos nossos sucessores”.

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Alea Jaapta Est

Jaap Blonk, um dos mais icónicos representantes da poesia sonora contemporânea, vai estar em Portugal, no mês de maio, para um conjunto de actividades, numa organização conjunta do Programa de doutoramento em Materialidades da Literatura – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; do Centro de Literatura Portuguesa da UC; do Serviço Educativo JACC; do Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, de Évora; do Teatro do CalaFrio, na Guarda; e do Hipoglote – RUC. Continue reading

Voz, três solos: invocação

Fátima Miranda: a mulher-xamã


Coincidiu a vinda de Fátima Miranda ao Porto, no dia 14 de Maio de 2017, com a Rua das Carmelitas, 100, e com um ciclo de performances intitulado Solilóquiossinais que só ela, enquanto áugure – que tira presságios do voo e canto das aves –, poderia conjugar nesta sala de plantas suspensas – “carmelo”, do hebraico “karmel” (כַּרְמֶל): jardim – e amplos espelhos repetindo as três janelas ogivadas com vista para a Cordoaria. Sala cheia na penumbra, aguardando o começo

Fátima Miranda. 1992. “Hálito” [excerto], em Las Voces De La Voz.

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Voz, três solos: re-fluxo

Nora Turato: fala automática

Imaginem que tentamos recordar um nome esquecido. O estado da nossa consciência é peculiar. Há ali uma lacuna; mas não uma mera lacuna. Trata-se de uma lacuna extremamente ativa. (JAMES, [1842], 542)

Imaginem agora um maremoto de ideias, citações, comentários, elocuções, boatos, interjeições, lamentos, conjeturas, preconceitos…, um chorrilho de informação que parece tudo menos lacunar. O auto-atropelamento do discurso advém de um jogo insaciável de memória e mastigação, de tal forma intensa e verborrágica que a sensação auditiva é, pelo contrário, a de uma transparência, a de uma “branca” ou esquecimento.
Lacuna e preenchimento tendem a confundir-se, como se depreende da citação de William James (1842-1910, EUA), , em cujos Princípios Psicológicos (1892) surge a noção de stream of consciousness, que alimenta e encontra na performance de Nora Turato a sua vocalização. 
O quase oxímoro enunciado por James – “lacuna ativa” – ganha presença em “I’m happy to own my implicit biases [Feliz com os meus preconceitos tácitos], performance de Nora Turato inserida na programação de O museu como performance do Museu de Serralves, no Porto, a 8 e 9 de Setembro de 2018.

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Voz, três solos: gorjeio

Ute Wassermann: chilrear humano

Bird talking sintetiza em si a esfera de influência sonora que presidiu ao concerto de Ute Wasserman — “fala de pássaro” no Vale do Ave:

Ute Wassermann, 11 de setembro de 2018: “Canções estranhas & assobios de pássaro”. Concerto no MIEC, em Santo Tirso.

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Tosse

Alkantara Festival 2018

A tosse de uma senhora palestiniana

Na sala grande do S. Luiz , preenchendo todo o volume do palco, desce do topo o desenho em perspetiva de três naves (uma central e duas laterais, mais estreitas) definidas por colunas rendilhadas de nervuras cinzentas arabescamente alçadas em ogiva, numa encenação tridimensional de um esboço arquitectónico, à imagem dos desenhos de Giovanni Carlo Galli-Bibiena (1717-1760, IT).  Continue reading

Overtones

Na véspera da lua vermelha, quatro enviados da República Federal Russa de Tuva apresentaram-se no Castelo de Sines . Toda a formalidade foi cumprida, desde a saudação respeitosa à cuidadosa afinação antes de cada música, sem esquecer a devida contextualização do local de cada prece: montanha, rio, cavalo, guerreiro… “Devem viver num sítio muito bonito”, dizia alguém no público. Com lua cheia em fundo, em arrebol escurecente, quando as quatro vozes arrancaram no subgrave, nós vibrámos também:

Huun Huur Tu – Ancestors (2010)

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Ultrascores

 

Pássaros, assobios, conversas, paradas, discursos… — tudo isto constitui material para o francês de ascendência martinicana Christophe Chassol (1976, Paris) que, num espetáculo de sincronização magicamente irrepreensível, articula vídeo, som e acompanhamento instrumental em tempo real.

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