O sotaque dos afónicos

Dallas Intro Season 1 (1978)

O espetáculo começa com abertura bombástica em voz-off, preparando o carrossel narrativo – the plot! – que condensará uma série de temporadas televisivas numa só cena, num só fôlego. Uma gigantesca nota de dólar americano – oh, money money – forra todo o cenário , enquadrando uma longa mesa de toalha branca com copos e vários telefones cromados e, do lado direito…um mexicano que praticamente não se moverá durante toda a peça.

Entra em cena a família Ewing: Bobby! Jock! JR! Miss Ellie! Lucy! Pamela! Sue Ellen!! –, os homens de fatinho branco e chapéu à cowboy, de pistola na mão ou à cintura, na jactância prepotente que identificamos como texana, e as mulheres de vestido brilhante e fartas cabeleiras artificiais.

E depois começam a falar.

Continue reading

Jaap Blonk: workshop + performance

© Poster by Rui Silva.

On May 20, 2019, the PhD Programme in Materialities of Literature will host the sound poet Jaap Blonk. Blonk will give a workshop about his creative practices at the School of Arts and Humanities, University of Coimbra, Sala Ferreira Lima, 4 pm (16h00).

Continue reading

Traições à letra, Bruno Ministro

Apagões escritos

Veio a lume , no carbon copy da internet, mais uma obra de Bruno Ministro , uma inscrição que, de tão reiterada e queimada nas impressoras deste mundo, passou à condição de símbolo, agora reobservado e desmontado pela habitual postura zarolha do Autor, olhando de viés discursos retilíneos e claros, asséticos (embora não a ponto de o branco se confundir com o vazio). Em inglês – e “na América” –, como manda a lei, This page intentionally left blank (MINISTRO 2018b) pode ser adquirido numa plataforma online.

Continue reading

Joker Molder

Até 30 de março de 2018, nas Carpintarias de São Lázaro em Lisboa, Jorge Molder lança à parede Caras, Mãos, Bocados e Espectros, os naipes do seu Jeu de 54 cartes.

Jorge Molder. Do documentário Entre Imagens (2012), de Pedro Macedo e Sérgio Mah.

Mãos

O ilusionista saltita dentro das cartas, mas não perde mão delas. Este é o trunfo do artista: deter o espetador como refém da estaticidade da imagem, mesmo que todos os sinais remetam para a encenação de um movimento, para uma teatralidade. De camisa branca sob fato negro, corpo branco surgindo da escuridão, o mímico joga às escondidas com o autorretrato, re(a)presentando-se numa pseudo fuga constantemente apanhada num “momento presente (…) de ‘polifurcação’” (ROZZONI 2018, 90).

Continue reading

nome de gente, melodia de pássaro

Verdilhão (carduelis chloris)

Verdilhão/ carduelis chloris (2009-04-02), em Dwingelderveld, Drenthe, Holanda, gravado por Sander BOT (xeno-canto)

Mas o ar tinha uma certa graça e, se bem que a ornitologia do trilo fosse discutível, será que não valia mais a pena começar a aprendizagem de [‘ʒwɐ͂w̃] com um chilrear acessível para depois o encerrar num trilo único de onde nunca mais sairia? (VILLEMAUX 2019, 13)

O primeiro número (#0) de Coreia (fevereiro de 2019) foi lançado na Rua das Gaivotas 6 em Lisboa no passado dia 24 de fevereiro de 2019 e inclui um texto de Cyriaque Villemaux (1988, Offenburg, DE) – “Enfanter le père” (“Inventar o pai”, na tradução de Vieira Mendes) – que parte da “ideia segundo a qual nós também herdamos dos nossos sucessores”.

Continue reading

João Onofre na Culturgest: Baladas de um coveiro

Tony Smith (modelo em 1962, fabricado em 1968) Die

“Six foot under. I didn’t make a drawing; I just picked up the phone and ordered it.”
Tony Smith sobre Die

Um cubo de 6 pés em ¼ polegadas de aço laminado a quente com escoramento interno diagonal”, sendo as dimensões determinadas pelas proporções do corpo humano. Estas são também as dimensões da caixa às portas da Caixa [Geral de Depósitos], antecipando assim – fazendo caixinha – o jogo de referências encaixotadas que atravessa toda a exposição de João Onofre. Como uma matriosca, mas invertida: figura(çõe)s encobertas por covers sucessivos.

Continue reading

Alea Jaapta Est

Jaap Blonk, um dos mais icónicos representantes da poesia sonora contemporânea, vai estar em Portugal, no mês de maio, para um conjunto de actividades, numa organização conjunta do Programa de doutoramento em Materialidades da Literatura – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; do Centro de Literatura Portuguesa da UC; do Serviço Educativo JACC; do Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, de Évora; do Teatro do CalaFrio, na Guarda; e do Hipoglote – RUC. Continue reading

Susan Hiller: a passagem de uma testemunha

Susan Hiller passou, a 28 de Janeiro de 2019, para o lado das suas obras, o lugar de receção e emissão de outras vozes.

Continue reading

A voz e o milho

Meal Ticket” é a terceira estória d’ A Balada de Buster Scruggs (2018), filme de Joel e Ethan Coen.

A voz

Abre-se o pano da carroça de Thespis:

I met a traveller from an antique land,
Who said—

Quem o diz – mais do que o dito – causa o pasmo do público que, escasso, se arrebanha sob as frias estrelas para assistir ao anunciado espetáculo. O assombro não advirá tanto da representação, mas da “realidade” física do ator. Torna-se impossível ouvir o dito sem considerar o desditoso:

Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. . . .

É essa a figura que o palco deserto ilumina:  um ator quadramputado cuja cara pincelada apenas desvia ao de leve o que a todos consome o olhar – um monólito de gente do qual sobressai, a custo, a loquacidade daquele ser que mal existe para além dessa grandiloquência:

Continue reading