Gil Vicente em DVD: “Auto dos Físicos”

“Auto dos Físicos”, de Gil Vicente, está agora disponível em DVD.

(fotografia de Eduardo Pinto)

Farsa estreada em 2014 por A Escola da Noite, companhia sediada em Coimbra, numa co-produção com a Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos.

Com encenação de António Augusto Barros, o espectáculo conta com as interpretações de Filipe Eusébio, Igor Lebreaud, Maria João Robalo, Miguel Magalhães e Sofia Lobo, cenografia de João Mendes Ribeiro, figurinos e adereços de Ana Rosa Assunção, luz de Rui Valente, som de Zé Diogo e vídeo de Eduardo Pinto.

A edição em vídeo foi apoiada pela Direcção-Geral das Artes do Ministério da Cultura. O DVD custa 10 Euros e pode ser encomendado por mail, através do endereço geral@aescoladanoite.pt. Até à reabertura dos teatros, A Escola da Noite oferece os portes de envio.

Ver (e ouvir) “As Três Irmãs”, no Porto

Ainda é possível assistir ao espectáculo “As Três Irmãs”, no Teatro Carlos Alberto (Porto), numa produção Ensemble – Sociedade de Actores/ Teatro Nacional São João.

A encenação de Carlos Pimenta, partindo do texto homónimo de Anton Tchékhov (em tradução de António Pescada), dá um relevo superlativo ao som e às vozes.

Segue o texto de Francisco Leal, que no espectáculo assina a sonoplastia e desenho de som, cruzando as materialidades da literatura, teatro e arqueologia dos media.

A Máquina Falante
“Deus deu ao mundo dois ouvidos mas apenas uma boca
para que ele oiça o dobro do que fala”
Epicteto, o estoico
E se pensássemos o microfone como um território em que a tecnologia é a ferramenta que permite a materialização da palavra e onde a realidade só acontecesse no plano sonoro?
Nestas Três Irmãs, a perspectiva divide-se entre a ideia da escuta radiofónica, em casa, individual e num espaço privado, e o voyerismo do ver fazer, da performance numa sala de teatro, colectivamente e num espaço público.
Num estúdio de gravação de som, busca-se fabricar cenários e ações na reconstituição da narrativa. A imagem é sonora. As relações dos personagens são mediadas pelos microfones e o sistema de amplificação devolve à audiência essas relações. Será, então, que o que se passa fora da captação dos microfones acontece?
O dispositivo sonoro que permite a experiência sensorial da auralidade, poder-se-à considerar, então, uma Máquina Falante. É, simultaneamente, um objecto e o espaço que cria, o lugar onde a peça de teatro radiofónico tem a sua projeção pública, como se de um filme se tratasse.
Nada de realmente novo, até aqui.
Eça de Queirós, em A Cidade e as Serras, ao apresentar a civilização “do Paris” de Jacinto, refere o teatrofone como um dos inúmeros aparelhos do progresso de 1887 que habitam o seu 202. Um serviço de assinatura telefónica, hoje equivalente aos canais de subscrição da televisão por cabo, que permitia a audição de excertos de ópera ou de peças transmitidas em direto, através de uma rede de teatros aderentes a este serviço de teatro à distância – “Théâtre Chez Soi”. Em casa, os assinantes dispunham de um aparelho para ouvirem por dois auriculares estas transmissões telefónicas, um sistema pioneiro da estereofonia. Este serviço acaba por falir, em 1932, com o crescente sucesso da radiodifusão e do fonógrafo. Por essa altura, o impacto das produções de teatro radiofónico, na cultura anglo-americana, era considerável. No anuário da BBC, de 1931, prescrevia-se que a audição do microphone drama, também designado broadcast drama, ou wireless drama, fosse feita com a telefonia instalada numa sala silenciosa e às escuras, reduzindo assim “as distrações dos olhos e dos ouvidos” e melhorando a técnica de escuta do ouvinte e, consequentemente, a experiência sensorial do teatro radiofónico.
Neste espetáculo de As Três Irmãs, a produção radiofónica da peça acontece à vista, num jogo de cena híbrido, oscilando entre a representação para o microfone e a representação teatral, em que o espaço cenográfico é o mesmo do estúdio de gravação. Não se pretende uma reconstituição da arqueologia da prática desse tempo. O recurso do dispositivo de mediação desta Máquina Falante e a organização do espaço sonoro-cénico onde ocorre, permitem uma abordagem diferente da mecânica estritamente teatral. Estabelecem uma mise-en-scène sonora no confronto entre a tecnologia e a territorialidade originada pela disposição dos microfones, dos elementos acústicos próprios de um estúdio de som (biombos e parede refletora em pedra) e dos locais de produção de efeitos sonoros, em conjugação com a apropriação dos seus lugares pelos personagens e a sua utilização pelos atores. Influencia a expressão oral da contracena na produção de diferentes níveis de comunicação dos personagens, reflete-se na gestualidade e movimentação dos atores, e manipula as perspectivas da audição, na representação de diferentes planos e espaços da imagem sonora, para a materialização da narrativa.
O trabalho de sonoplastia, termo exclusivo da língua portuguesa que surge com o teatro radiofónico na década de 60, e que designava todo processo de gravação, montagem e sonorização da narrativa em suporte fonográfico (diálogos, música e efeitos sonoros), funde-se, pois, com a ação do desenho de som, o desenvolvimento do conceito sonoro e, simultaneamente, do dispositivo de projeção sonora da performance numa sala de espetáculo, desempenhando, assim, papéis duplos e complementares.
Francisco Leal, Dezembro de 2020
Fotografias de Ensaio: João Tuna/TNSJ

Introdução a Global Shakespeares: “António e Cleópatra” e um confronto com a própria memória

Toca-me a divergência entre voz/palavra e a visão/encenação dos corpos, do espaço. Era bem isto que ouvi, mas não assim que vi.

Vi o espectáculo António e Cleópatra há perto de três anos (2017), no Teatro Municipal do Campo Alegre, no Porto. Estava uma tarde de sol em que me demorei depois: não deixava de pensar naqueles dois intérpretes que no palco grande tinham trocado de papeis, tinham conversado e narrado a relação entre António e Cleópatra, numa pessoal reescrita da peça de Shakesperare por parte do encenador/dramaturgista Tiago Rodrigues. Recordo o sol, as imediações do teatro, a sala cheia, o meu espanto.

Estas recordações, inextrincavelmente pessoais de um espectador, num dia, numa cidade e num momento de vida, são pertinentes por serem precisamente o que não está no registo da máquina de filmar. Entendamo-nos, refiro-me à máquina que grava o espetáculo, também ela espectadora e (re)produtora de memória. Porque o que se regista é sobretudo o objeto performativo a que assistiram inúmeras sensibilidades, com incontroláveis reconstruções posteriores.

Encontro esse espectáculo em registo videográfico, em linha, no arquivo digital “Global Shakespeares”. Enquadrado pelo arco do proscénio do (meu) computador e já não do teatro material em que o vi pela primeira vez, dou-me conta, pelo contraste, do que está e não está ali.

Toca-me a divergência entre voz/palavra e a visão/encenação dos corpos, do espaço. Era bem isto que ouvi, mas não assim que vi. A memória sossega-se somente ao encerrar a imagem. O que não está lá e fez parte da escrita (inscrição?) desse momento em mim: as recordações do dia em que assiti. E do ponto de vista do espetáculo, o que eu não tinha visto (nem poderia ver, pois é essencialmente capacidade técnica do medium fílmico): os planos, os cortes, o pormenor, por oposição à minha abrangente visão de tudo.

As palavras que volto a ouvir estão também legendadas, em inglês. O vídeo (sabemo-lo) não é o espectáculo, mas as vozes são as mesmas. Esta encenação, assim registada, opera uma rasura e ao mesmo tempo evidencia o que não está lá e pertence à experiência subjetiva do espectador, esse outro polo do teatro, recetor daquelas palavras e gestos. António e Cleópatra está agora resignificado entre centenas de outros (vídeos de) espectáculos, num arquivo mundial de algo que já passou, que podemos ver ou rever, incontornavelmente de modo diferente. Ou, devo antes dizer, tecnicamente de modo diferente?

Global Shakespeares – Video and performance archive, projeto do MIT, parte de algumas premissas que me parecem ser riquissimas: a combinação de investigação e registo de criações, o caráter colaborativo de um projeto de Humanidades Digitais e o alcance (redundantemente o digo) global a nível temático e material. Afirma-se uma universalidade do Bardo inglês, mas também do livre acesso e da pluralidade de contribuições, tudo em meio digital e desenvolvido (sublinho) num instituto que é referência mundial na investigação tecnológica e sua relação com as humanidades. Agora, António e Cleópatra tornou-se parte de um Shakespeare Global, passando a ser Antony and Cleopatra, falado em português, legendado em inglês, entre muitas outras produções. Deste caso destaco uma vez mais a voz, e repito a primeira sensação: era bem isto que ouvi, mas não assim que vi.

Não se passará o mesmo com o texto vicentino e os vídeos que fixam as suas encenações (assunto da minha predileção), registando a mensagem mas não o seu meio? Voltarei necessariamente a esta questão.

O sotaque dos afónicos

Dallas Intro Season 1 (1978)

O espetáculo começa com abertura bombástica em voz-off, preparando o carrossel narrativo – the plot! – que condensará uma série de temporadas televisivas numa só cena, num só fôlego. Uma gigantesca nota de dólar americano – oh, money money – forra todo o cenário , enquadrando uma longa mesa de toalha branca com copos e vários telefones cromados e, do lado direito…um mexicano que praticamente não se moverá durante toda a peça.

Entra em cena a família Ewing: Bobby! Jock! JR! Miss Ellie! Lucy! Pamela! Sue Ellen!! –, os homens de fatinho branco e chapéu à cowboy, de pistola na mão ou à cintura, na jactância prepotente que identificamos como texana, e as mulheres de vestido brilhante e fartas cabeleiras artificiais.

E depois começam a falar.

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